segunda-feira, 14 de maio de 2012

contingências e provisoriedades


Simbioses impermanentes sempre são. A saudade de um corpo impregna desvios quando um corpo se perde nos congressos, na comunicação eventual para nossos pares, nos diálogos acadêmicos, em tudo o que nos afasta do sol! Tudo o que nos encarcera em salas e compartimentos refrigerados. Sepultados no trabalho, deixamos o mar lá fora. O sol nasceu entre a bruma. Muita cadeira em aereoporto... desconfortos de avião. Todos fracassos e insucessos e balanços e vontade de sair correndo para arte, para a pura criação onde corpo algum se educa.

O discurso está borrado, mas os espaços cada vez mais limitados por ordens que os segmental, dividem e estabelecem normas de uso que estreitam todas as possibilidades abertas no discurso. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012


Parecer sobre projeto de TESE de Juliane Tagliari Farina
Orientação: Tânia Galli da Fonseca
Examinadora: Paola Zordan- PPGEDU/UFRGS

Quando a escrita carrega uma voz
programa insensato para
uma audição da quarta pessoa do singular



EXAGERADO

quero o Atlas do Impossível porque conversar sobre loucura cansa
favor raspar a terminologia territorial e seus des
esquecer as perguntas
produzir no desmanche- MANCHE
anonimato dos autores do atelier- autores do acervo tem nome
nominal none
ai os autores e seus não nomes

uma sesta para digerir o fastio
quero guaraná

o que posso fazer para violentar teu pensamento? te tirar do já sabido e do já dito?
te sufocar para que não cantes?
NÃO

te quero fracativa forte frágil firme sempre

desmanchar a série ENCADEADA para encontrar uma cadência decadente desdentada
o insuporte intolerável instintivo
que delira o que não cabe
num parecer
plantas não construídas da menina que foge da vista frontal dos cômodos
pragmática louca da língua sem ordem
com palavra na redundância de signos soltos
trans semi bi tri sexual celibatária na solidão escrevente
inevitável
língua menor só serve para clitóris minúsculo
melhor dilatar uma baba e largar os conceitos amarradinhos
já digeridos que servem para artigo – lembra que é obrigatório publicar artigo

p.36> signos equívocos unívocos plurais
voz explicativa
demais
quando
a única miserabilidade são as palavras coladas aos significados que a explicação decalca
amei as dedicatórias e inclassificações  p.13] amei{ demais
uma estante louca de classificação irônica inconsistente paradoxal
é isso que tu quer defender?

investir no delírio somente se for capital e daqui tirarmos grana para pagar a festa

a fala louca não intervém em nada que não seja nossa estúpida necessidade de coerência que sob hipótese esquizo e analítica e psi contrapõe o regulamento ao amor bem quando esse precisa de regras para poder escapar das palavras de ordem que residem na falsidade de quem quer defender uma verdade
réguas não passam  coisas para nos acharmos dentro das linhas
seus risquinhos são de mentira

amar na linha do redemoinho que nos põe a dançar
enquanto conteúdos, formas, expressões
e sei lá mais que termo
pouco interessam ao corpo
o corpo que canta, que grita, que murmura e que deixa correr palavras somente para vibrar nelas

a abominação presente não passa da ausência de quem se ama sem precisar de palavras

o pior amor é aquele que se discute
o amor que não vale a dor que provoca é aquele cheio de palavras
cujos signos não batem com as atitudes do corpo
a palavra do louco surra os corpos
precisamos de encontros afetivos e não de proposições cuja manifestação significa desígnios
que não expressam a mistura de corpos que por amor nos compõem em arte outro amém
outrem na ilha deserta que nunca nos sai

e se os loucos de Pélbart são refugiados de guerra os nossos são uns nada pelo Bom Fim


há rostos e há vozes
tão bem construídos que não se traem
há pessoas traídas que se batem até sangrar

 sem rosto, subjetivação doutora e significância pirante que toda hora enlouquece
a fim de morrer de uma vez e simplesmente porque
os que vieram e venceram não mereciam estar vivendo

há dores que São Pedro algum recolhe
há dragões que Jorge algum é capaz de domar

daquEla que cheira e se estrepa
daquEla que adora escrever com bic mesmo sabendo que o tempo detonará a escritura
esborranchando a caligrafia no papel
daquEla cheia de ruídos
incapturável na mais dura disciplina

deixo meus rastros surtados por convicção
descontrolados porque assim é melhor
e te mando catar coquinhos
quando procurar superfícies de sentido que o pariu
e tu não me engana que não é teu
o poema da 52

única desvantagem é no manicômio não servirem sashimi, veuve clicquot e marzipan
por isso melhor disfarçar a psicose e garantir a estada aqui
acreditam que sinto medo quando minha vontade de morrer é aventura grande
para chegar bem onde não sei o que tem lá
sim, me precipito muito
escolhi uns corpos, mas eles tinham neuroses que feriam meus abismos
por que, então, vens acadêmica enquanto eu te queria fluxo e emanação?
erro porque confundo as datas e sofro a lonjura dos teus abraços numa cidade de cinema
onde conseguir um programa exigiria não te ler e não gastar as noites nessa escrita
talvez pessoa sem número
que perdeu a voz
na anotação trocada
 e agora, sem corpo...
Como? Não sou sem corpo então como parecer sem ser será?

se creio, acredito no que desejo
como não desejo sentido, quero as palavras sonantes
que só pulmão, garganta, língua e boca podem dar

ganhar as quartas e os singulares
perder a chance desse acontecimento
sem perdão porque esse tempo não voltará
já me desfiz sem nem fazer a performance
por mais que se queira o avião nunca cai
nenhuma bala na boca do túnel
sem evocar crítica, deus o livre
afungentar a clínica
que tudo se destrave sem c. se é que há alguma trava na louca que não entra no seu pote

daquEla que jamais tenta preencher lacunas, ainda que compulsoriamente risque
 rabisque e encha de quadros e coisas toda as superfícies possíveis

ESTRANGEIRO

Uma cama ampla com lençóis brancos e travesseiros azuis vista de cima. Um corpo com túnica indiana se espraia lendo caderno de espiral próximo a um facho de luz branca. Um close no braço cheio de hematomas.

Sala de pé direito alto. Três figuras sérias cujas roupas não interessam e nem se destacam somando números.  Pela janela o morro da Mangueira. Tantas vezes filmado que qualquer enquadramento vira clichê. Arquitetura orgânica pouco caiada. Não Há imagem captada que dê conta do fluxo de um olho sonoro perante as aglomerações vistas da sacada feita camarote na Universidade cinza. Caixas de concreto, lâminas perfurantes: esse é o prédio. Pode, uma “linguagem” como o cinema remeter ao fluxo pouco cortado do pensamento enquanto imagem sentida no barulho do trânsito, no suor acumulado nas dobras sob atmosfera tropical, no cheiro emanado entre as pernas, no olho que discorre aproximações e distanciamentos que enquadramento algum dá conta? Há cinema nas palavras? Pode, um cinema de escritas loucas sem imagem? Conseguem, os frequentadores da Oficina de Criatividade, assistir filmes? Por que não apenas a escritura, em sua grafia de glifos encadeados ao esmo do morfema saboreado pela voz? Por que não deixar a sintaxe coerente e se assumir na prova do que o juízo traz como impossível?
Ah, sei, defendes uma tese e fazes isso já de antemão, com a excelência que um Programa exige. Então, use essa arguição, publique, enfim, cumpra com que o mundo espera de uma professora doutora terapeuta e tal. Vai em frente, tu podes muito.

Aqui, paro na imensidão do basalto e num horizonte onde o mar e seus cheiros não se fazem sentir, embora eu saiba, intelectivamente, que estejam perto. Viajo para ficar no mesmo lugar examinador, avaliador e acadêmico do qual a arte sempre quer fugir. Por isso piro. E a pira, simbólica, farroupilha e expedicionária é coisa que só na Redenção se entende.

Insensato. Posso adjetivar? Cabem adjetivos para uma proposta dessas?

Não vamos ficar na problemática das adjetivações. Os artigos estão praticamente prontos dentro do documento. A ordem é publicar.

Todo meu carinho, o quanto for possível de extrair das frias palavras que mando desacompanhadas da voz.

P.S. As mães sempre ficam mais histéricas e descontroladas perto das filhas.
P.S 2. As filhas tentam se controlar e parecer sensatas perto das mães. 

quinta-feira, 1 de março de 2012

Asteriscos entre breves considerações


Os elogios de praxe: aderência à orientadora, elegância, economia, fluência, na linha.

*

Elogio da surpresa. De um corpo não capitulado, o corpo em obra.

***

Corpobra de Antonio Manuel. Achei que seria citado, tanto as Artes Visuais são evocadas.

O corpo, sempre o corpo. Um corpo, qualquer corpo.

*

Corpo papel. Pode, o que é riscado num corpo ser ignorado?

**

O corpo é uma casa, a casa é um corpo. Há pouca arquitetura no texto. E o que está replete de peles, rugas, estiramentos provisorios, não se adjetiva melhor numa anatômica do que numa arquitetônica?

*

As obras do texto são sonoras e visuais. Literárias. Há superfície, composição. Nada se edifica, nada se projeta. Por que insistir com a arquitetônica? Texto faz pregas, mas não chega a explorar um labirinto.

Por mais dissertativo que seja, o texto faz deslizar os conceitos em sinfonias, texturas, repetições.

***

A tese flui, mas não dá conta das tipologias do corpo. Como escrevi na ocasião da qualificação: um corpo de fome, o corpo pecador que a hóstia não sacia. Feito de linhas escorregadias, esse corpo migra e desdobra...

***

Repetindo que: tal tese trabalha esse corpo cheio de entraves provisórios, sabe que não passa de texto. Num encadeamento de linhas onde a carne não está senão no afecto daquele que com o corpo permanece.

Corpo ansioso, todo tempo a violar o pensamento roendo unhas.

*

O problema da rostificação responderia à arquitetura? Um muro é erguido, somente os das cidadelas e dos labirintos é arquitetado, muitos não passam de carpintaria.

*

O corpo vai, mas fica. Palimpsesto. Mas o corpo da tese emergiu com elementos além da escritura. Um corpo se escreve?

*****

O cotovelo. Todo um corpo na pele articulada. Tese plena de orelhas, com poucas bocas e um atropelamento.

Corpo sempre sucetível à acidentes.

Por que nunca conseguimos tratar do corpo sem trazer a morte?

A morte de Barthes…tem uma história querendo atravessar uma esquina.

*

"Inscrever o corpo na voz, na escritura, isso não se encerra"

***

PARECER SOBRE TESE Corpo em Obra: palimpsestos, arquitetônicas, do Cristiano Bedin da Costa, vulgo Seu Chico, orientada pela Sandra Corazza, vulgo Mara e por aí vai...



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

imagens refletidas sem espelho

ainda que enunciável em uma linguagem possível

dispara perda de sentido

espaço e lugar são a mesma coisa?

devir dos corpos na paisagem

Notas esparsas na última leitura da dissertação de Franciane Cardoso.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Menos um

Mais eu

Incógnitas pessoas

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

No tempo das eletrolas


Os cânceres se alastram

na insuficiência dos corpos


As libélulas perambulam

na gratidão da chuva

que despencará


tenho medo do êxito da bomba


No fundo dos armários

as baratas se acasalam

indiferentes ao beijo

da agulha no disco



Lembrei desse poema de mil novecentos e eu era jovem porque encontrei som de eletrola lendo a dissertação do Leonardo Garavelo Martins Costa, Uma vida em palavras. Amanhã levarei essas linhas na defesa lá na Psico Social. Eu não sabia que minha mãe, que certamente não leu esse poema, morreria mais de dez anos depois de eu começar aquele livro de poesias do período pós-adolescente e pré-vida sem tempo de professora e mãe que intitulei PLÁSTICO (impublicado). Morreria por causa de um câncer...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

infinitos: vistos por perspectivas várias

1. Pensar só acontece porque se dá na matéria.

2. 2. O caos é virtual, efetiva o rela num plano onde os conceitos se atualizam

3. 3. Todo problema é CORPO.

4. 4. O devir expressa o encontro dos corpos.

5. 5. Vianda= carne abatida, carne de açougue.

Notas para A cor filosófica em Deleuze: pensamento e conceito de Jane Rodrigues Guimarães.

sábado, 3 de dezembro de 2011

mãe, professora

Alimentar. Providenciar. Correr. Atrás do tempo. Comer. Beber. Consolar. Abraçar. Doar meu corpo. Deitar junto. Dormir sem sonho. Deixar de ser.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

o que quiser

o que quiser quis sem querer

qualquer coisa que quiser nunca se quer

o que se quer é não querer

sexta-feira, 24 de junho de 2011

pensamento em ti

se eu te penso empurro nuvens para alumiar teu rosto, entrar no fundo do teu olho e afundar na superfície imensa da vida que a cada instante nos afasta sedimentando números que nos unem e nomes que fazem a fina pele tão aberta a fungos e feridas e feias inserções que é melhor nem pensar

pois quando te penso sofro os arrepios que deixo de sentir e todos abraços que tua força exaurida não permite e me deito fria com dores certa de me esquecer sem conseguir não te pensar

então des-penso e durmo sem dormir aquele sono impensado de um corpo que sem outro corpo pouco se pensa

sem descanso

Qualquer pessoa faz muito menos.

Consumida pela solidão de quem faz tudo, nada que faz acontece.

Desacontecida, tem que aprender a não fazer mais nada.

Talvez assim alguma coisa aconteça

segunda-feira, 13 de junho de 2011












J. M. W. Turner: Luxembourg (1834)

uma semana

preparo de aula, guardar casacos espalhados, os horários das aulas de reforço, cardápio mais ou menos estruturado, instruções para recolher as cinzas, revisão da água, perdendo a hora, duas lavagens de cabelo, serralheiro da solda da boca de lobo de portão, treino incompleto, a indicação das bolsas, aula corrida sem intervalo, entrega revisada como deu ao a organizador, um conto de Onetti, agasalhos pela manhã, leitura de sete mapeamentos, as meias em suas certas gavetas, manchas a serem esfregadas, a conferência de sexta-feira, a mala a ser feita, a troca de roupa de cama, o creme para as espinhas, um anti-térmico para o convalescente, algumas palavras para a estagiária, a hora da ginástica, os pagamentos, a limpeza da areia, a lista de convidados, o envio da documentação, a cópia da papelada, a quatro ligações de saudade, o parecer técnico para ontem, a chamada esquecida em casa, a anotação de presenças, a reposição de papel higiênico, as presilhas de cabelo, a apresentação da próxima semana, as passagens, as combinações, a mensagem esquecida para o educativo da Fundação, a maria-chiquinha bem ao lado, a marcação das consultas, a diarréia da pretinha, a fatura, café, café, café, a exposição sobre projetos, a dispersão da conversa, os dois mais dois são quatro, a piada da pérola, as recomendações diárias, a falta de um tempo para um banho, a insuficiência das palavras, os gastos a serem anotados, a separação do lixo, as visitas a serem feitas, os telefonemas de consolo, o pedido de mapa astral, dois textos para amanhã, alongamento, a reza, a oferenda aos antepassados, mantra, sonho seqüencial ofidifágico, o estresse de uma, a briga de meninas, interação de pelos, rápido back-up, poemas a digitar, presentes comprados, sem saco para delineadores, dentes escovados, contorno com batom, as questões norteadoras, os dispositivos em análise, o fu do gato, um beijo mal dado, um chazinho, o acumulo de ausências, as perspectivas de avaliação, a lista da produtividade, o meu ovário exposto, conceitos a desbravar, o pó na prateleira, a acomodação dos anéis, cinco mil idas ao banheiro, uma ruga no espelho, um cabelo branco arrancado, um abraço porque te amo, beijinhos de boa noite, quarenta e sente mensagens divulgando eventos, convite para publicação, aceites e inscrição, atenção às provas, o lado bom e o lado ruim de cada um sem tempo para eu dizer do meu bom, notícias de cirurgias, valha São Rafael, depósitos, a apropriação dos saberes, a escolha das temáticas, a lista imensa de coisas a fazer, oito bilhetes na mesa, os certificados a serem entregues, os sintomas, a injeção e os medicamentos, minha feiticeirinha, as estufas, caiu a conexão, o ar, o recado, as compras incompletas, agulhas no pescoço, vagas apertadas, chuva, lua crescendo, crepúsculos tênues, il referendum, caixa postal, combinações com o gerente, contato da supervisora, a carga horária do fono, reunião de coordenadores, levantamento de preços, uma fotografia, bexiga cheia, pés inchados, fome de quê, o quadrinho do André, cento e sessenta e seis slides, aereoporto deserto, cinzas vulcânicas, pesquisa, desejo de Patagônia, dez horas de digitação, cara no telão, nenhum jantar, banho de imersão sem fim, whisky com Red Bull e Foucault e imperativos até duas e meia da manhã, arrumação geral, pano, louça, restaurante que hoje cozinha nem pensar, quantas horas na frente do pc, supermercado, armários de mantimentos, geladeira, congelador, arranjos, não quero saber que perdemos, uma maquiagem, encontros, cerveja, histórias, sofás, camas, lençol que molha, ronron de felinos, café, café, suco espremido, fila para sorvete, kibes, pacotes, louça, louça, massa de bolo, rapa, forno, gol contra para o eterno adversário, os textos para a semana, a série azul, o Z, a aula de amanhã, teu molho com penne, suco de uva, o lugarzinho perfeito, a leitura dos últimos capítulos, as obras de Michelangelo, Turner, flores lindas, o suspiro profundo, a morte próxima, o merecido descanso.