segunda-feira, 2 de maio de 2011

Atrasado, mas sempre atual

Vontade de arte

No encontro que nos move

Decompondo azares

Com a sorte que estrelas nos trazem

Nesses dias que pensamos juntos

E nas noites a serem celebradas

Quando chegar o impossível

De não estarmos submersos

Nos livros que nos unem

Para inventar trabalhos

Em curso louco

De pesquisa, ensino e extensão.



Esse foi para o Leo, e o próximo foi em função da minha ida para sua banca de qualificação.

Universidade

Vim vestida para o espaço liso e fui barrada nos estriamentos do Campus da Saúde. Uma professora de tênis é suspeita, pronta para fazer ginástica pior ainda. “Só pode ir por fora”- disse o Guarda. Ao guardar o portão proíbe pedestres de atravessar uma Universidade que a priori é de todos e muito mais minha porque fui praticamente concebida nela, mas o tempo inteiro ela me ejeta, esteja eu a pé ou mesmo motorizada. Noutros dias no Campus Centro, acima dos mais doutos saltos na cápsula automóvel, empaco no fluxo trancado do trânsito que não transita e das vagas nunca vagas nas quais meu corpo deve sair carro e dele se despir com roupa para matar o desejo de ir e vir que esse modo de vida estanca.

Recusar o espaço sem perder o tempo de trabalhar ainda que obrigatoriamente expelida pela mesa que nunca consegui e pelas salas que necessariamente divido mas não tenho como me instalar. Ainda bem que recebo salário por esses enormes desconfortos.

domingo, 10 de abril de 2011

Só sou um animal

Fora da minha natureza

Proibido de bater na porta

Humano demais

Por causa da velhice

Isso que pouco bicho conhece


Uma fêmea

Poço de desejos

Corpo a acoplar

Um coração que bate

Bombeia sangue

E suporta uma pele

Que volta e meia

Dói

quarta-feira, 6 de abril de 2011

eixo ético

Cuidar de si é resistir aos dispositivos de controle. A alteridade humana não faz do outro a condução de um. Desistir do mundo é abandonar a própria vida.

heterista

Eu não reflito. Faço. Penso muito o que eu faço. Sem espelhar. Fora do templo, no tempo. Numa intempestividade ritual de pura paixão. Longe de mim abraçada nas artes. A copular com as palavras porque elas pulsam os sentidos que a pele perde.

terça-feira, 5 de abril de 2011

domingo, 27 de março de 2011

presença e cura

Um amor se faz entre corpos. Palavras o testemunham, mas discurso algum expressa a fusão de corpos que o cria.

pequena verdade

Amar é sempre certeiro. O problema é acertar o amor em alguém que não nos ame com a mesma certeza.

ausência entristecedora

Não se trata de “erros”, mas de usos e escolhas infelizes.

olhar sensações

Os desconfortos do corpo não são vistos. A tristeza de não ser amado se estampa no rosto. Só vê o sonho quem dorme com ele. Descrever um sonho não explica a sensação do corpo que se movimenta no sono parado. Os sonhos só servem para mostrar que é a mente e não o organismo que nos move pela vida. Junto a sensações, visões, sentimentos e fluxos outros ainda inominados. Os desconfortos do corpo são os do pensamento. A alma, força que anima e movimenta o corpo, não é exatamente o pensamento, mas sim como um corpo cria o que pensa junto ao organismo que vive. Numa vida que, nunca descolada do corpo, desorganiza o organismo na medida em que a alma o pensa e o põe a se movimentar. Nem toda alma pensa, ainda que todo corpo, em diferentes graus, seja passível de se movimentar. O corpo, com ou sem pensamento, dói. Talvez a dor aumente na medida em que o pensar seja intensificado. Mas ainda é melhor pensar no desconforto e na dor do que ignorar o corpo e viver morto dentro dos órgãos e seu organismo.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

professorartista

não firma identidades

posto funcionar num trânsito

mesmo procurando um ser

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

flechas desencontradas

Das coisas que me concernem, a desgraça de não desfrutar de um corpo é a que as piores dores lança. Ser um corpo privado de prazer é mais cruel do que ter um corpo agredido por quem almeja aniquilar com ele. Quem efetivamente me fere o faz porque está pleno ao meu lado, investindo contra mim e mesmo me fazendo sangrar. Porque vive ao meu lado mesmo quando parece não estar. Se eu sangro é porque alguém me ama. “Quem me ama me segue”. Os que me seguem o fazem porque querem ficar junto. No preparo da ceia, no festejo, no brinde perdido na dor insana da passagem marcada pela pior ausência. Sem sangue, sem carinhos, sem beijos: as almas famélicas buscam palavras. Mas carne que sou, palavra de amor alguma me consola. Somente a mão, decepcionada por alguém incapaz de amar, capaz de agredir por sofrer um amor que se desfaz sem nem ter sido feito, pode, ao me afastar, lembrar que há além dela há um corpo mais intenso que todas as intensidades. Um corpo que se entrega e me vive, ainda que sangrando por algo que definitivamente não vale uma gota do que no corpo pulsa.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

em casa

Encontro o novo porque o invento. No conforto das belezas que escolhi. Os sabores dos grãos, o aroma do café recém moído a borbulhar, as passas, os encostos, as texturas do pleno bem estar. Mesmo na submissão dos horários, a liberdade das horas dentro de si.

viagem

Vencer o sono, atravessar quilômetros, carregar bagagem, converter horário providenciar bilhetes, esperar embarques, instalar-se provisoriamente, ter desconfortos óbvios, piorar a alimentação, usar apenas o que há, sofrer a falta do que foi esquecido, nunca ver tudo o que há para ser visto, adiar tarefas, se cansar arriscando não encontrar o novo, o desconhecido, o estranho acréscimo aos sentidos que justifica espúrias sensações. Nada melhor que voltar.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

aventura

Caminhos, trilhas, trajetos, percursos a riscar um chão.

Para onde te levam, pés? Que bolhas e calos provocam?

Até onde vão, ó rodas? Para que percorrer suas breves e longas distâncias?

Se vais, aventureiro amado, que volte para meus olhos e para ainda me ter em teus braços, esses que vão junto mas continuam, em emoção, a me prender.

O que perguntas, boca que viaja? Quais línguas arriscas?

Em que desertos te calas?

Deserte, desde sempre, desde que para sempre traga as poeiras do teu sonho para a delícia indescritível dos nossos beijos.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

cabala

Não tenho outra coisa a fazer que não seja me deter nas tessituras do Livro do Mundo. O destino acontece. Encontrar equilíbrio é cortar o que não presta. Escrever a própria história. Aceitar que o pesadelo faz parte do processo que nos conduz à glória de vencer às contradições e dominar as adversidades. Saber que os adversários são ocasionais e que na devoração de uns e de outros quem impera é sempre a Mãe. E ela não empunha espadas. Nem perde tempo com objetos abstratos, pesos, análises equiparativas, medidas. Só posso receber amor se estiver com a mente em completo repouso. Só serei amada quando todas as taças estiverem cheias. Não há crueldade para um corpo saciado. Vitoriosa é a justiça que sem julgamentos sente o peso da alma de acordo com a gravidade dos pensamentos. Ser justo não implica julgar. A medida certa é algo que pode fugir ao bom senso. As sensações são verdadeiras, os sentimentos e os pensamentos enganam. O fogo do espírito não julga. O fogo do espírito não exige sofrimentos e êxtases alterados para ser alimentado. Basta arder. Numa sutil combinação que toda equação obtida não tem como expressar. Os números podem dizer muito, mas tal como as palavras, jamais deixaram de ser um jogo. Fácil se fosse mesmo as dez esferas e só umas dezenas e poucos caminhos. Beleza ter Jesus para colocar num deles.

Jesus

O caminho é só mais um caminho. Amar é uma escolha. Para escolher precisamos nos entregar. Uma entrega exige sacrifícios. Fazer sacro é beber e comer. Esse é o meu corpo, esse é o meu sangue. Pão maravilhoso, vinho da vida.



quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

infinitivo deComposto

AMAR

A sombra, o homem, as imensas decepções. A fera, o ferimento, a carne, o sangue, o boi, a vaca, os cornos, a lua, a cauda do escorpião. A dor, o veneno, as pústulas, o pus, o punho, o dedo, o que se diz depois de doer. O sentimento, o sonho, o sorriso, a risada que mesmo assim vem. A sorte, a substância, a espuma, o morno, as águas, o jorro, o jato, o que joga sem querer ganhar. O gosto, o gostar, a adoração. A pele, os cabelos, o verdejar. O ósculo perdido, o eriçar dos fios, o arrepio, a mordida efetiva, todos os dias para transar. O vinho, o queijo, o prato, o provar. A língua, a letra, o sentido daquela canção. A calma das estrelas, a troca dos azuis, a textura das pétalas, as mutações do horizonte. O ar, o bafo, o braço, os louros, a espada, a prata, a grandeza dessa paixão. A barba, a brabeza, a bravura, a barbaridade do animal. A batida, o golpe, o chute na coxa, o safanão na cara, o tapa em cheio, os hematomas, as marcas nos músculos, o deslocar dos ossos, toda alteração. O pior, o pagamento, a lama na bota, a bosta, o perdão. A oração, os incensos, a pedra, o pedestal. A peste, o pé, o salto, o modelo, a exata prescrição, O processo, a pena, o centro, o conceito, a pegada, o que afinal pegou. O bicho, a baba, o banho, a banheira, o enrabar. O fado, o feito, o que tinha que acontecer. A cama, os carmas, o cheiro dos travesseiros, o inquietar dos números, o desvendar das linhas, o uso das colunas, o balanço da rede, o evocar do mar. A garra do caranguejo, os uivos do cão, a coragem de entrar. O tapete de ovelha, o fogo na lareira, a fumaça das ervas, o tostar da carne, o espeto, a faca, o bisturi. A mão, os mil e quinhentos nãos, os milhões de senão, as ordens espúrias, o vociferar. A força, o mais fraco, o que fica para lembrar. As taças, os brindes, os cálices impossíveis de se quebrar. Os pedaços catados, os cacos do arremesso, o cimento e a cola, o altar inexistente, o estranho lugar que é nós. O abraço, o laço, o pavão. As garças do cais, as tartarugas do parque, os vidros embaciados, as flechadas loucas, os quereres desencontrados, os labirintos, o preto sobre o branco, os projetos, os dejetos, os torpedos, o sacrifício inevitável, as inesperadas voltas no destino.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

mais silêncio

Falar de poesia – experiência radical- prender a força do poema numa linguagem sem código, a palavra poética é corpo que insiste em assistir cenas sem história. Insubtancial vacilação que interpela no inaudito da forma que o discurso não contempla. Ferida trágica que ao se cantar nada explica Implicada em ritmo melhor mostrar apenas a música em curso que dizer retumba a esmo.