não firma identidades
posto funcionar num trânsito
mesmo procurando um ser
Das coisas que me concernem, a desgraça de não desfrutar de um corpo é a que as piores dores lança. Ser um corpo privado de prazer é mais cruel do que ter um corpo agredido por quem almeja aniquilar com ele. Quem efetivamente me fere o faz porque está pleno ao meu lado, investindo contra mim e mesmo me fazendo sangrar. Porque vive ao meu lado mesmo quando parece não estar. Se eu sangro é porque alguém me ama. “Quem me ama me segue”. Os que me seguem o fazem porque querem ficar junto. No preparo da ceia, no festejo, no brinde perdido na dor insana da passagem marcada pela pior ausência. Sem sangue, sem carinhos, sem beijos: as almas famélicas buscam palavras. Mas carne que sou, palavra de amor alguma me consola. Somente a mão, decepcionada por alguém incapaz de amar, capaz de agredir por sofrer um amor que se desfaz sem nem ter sido feito, pode, ao me afastar, lembrar que há além dela há um corpo mais intenso que todas as intensidades. Um corpo que se entrega e me vive, ainda que sangrando por algo que definitivamente não vale uma gota do que no corpo pulsa.
Encontro o novo porque o invento. No conforto das belezas que escolhi. Os sabores dos grãos, o aroma do café recém moído a borbulhar, as passas, os encostos, as texturas do pleno bem estar. Mesmo na submissão dos horários, a liberdade das horas dentro de si.
Vencer o sono, atravessar quilômetros, carregar bagagem, converter horário providenciar bilhetes, esperar embarques, instalar-se provisoriamente, ter desconfortos óbvios, piorar a alimentação, usar apenas o que há, sofrer a falta do que foi esquecido, nunca ver tudo o que há para ser visto, adiar tarefas, se cansar arriscando não encontrar o novo, o desconhecido, o estranho acréscimo aos sentidos que justifica espúrias sensações. Nada melhor que voltar.
Caminhos, trilhas, trajetos, percursos a riscar um chão.
Para onde te levam, pés? Que bolhas e calos provocam?
Até onde vão, ó rodas? Para que percorrer suas breves e longas distâncias?
Se vais, aventureiro amado, que volte para meus olhos e para ainda me ter em teus braços, esses que vão junto mas continuam, em emoção, a me prender.
O que perguntas, boca que viaja? Quais línguas arriscas?
Em que desertos te calas?
Deserte, desde sempre, desde que para sempre traga as poeiras do teu sonho para a delícia indescritível dos nossos beijos.
Não tenho outra coisa a fazer que não seja me deter nas tessituras do Livro do Mundo. O destino acontece. Encontrar equilíbrio é cortar o que não presta. Escrever a própria história. Aceitar que o pesadelo faz parte do processo que nos conduz à glória de vencer às contradições e dominar as adversidades. Saber que os adversários são ocasionais e que na devoração de uns e de outros quem impera é sempre a Mãe. E ela não empunha espadas. Nem perde tempo com objetos abstratos, pesos, análises equiparativas, medidas. Só posso receber amor se estiver com a mente em completo repouso. Só serei amada quando todas as taças estiverem cheias. Não há crueldade para um corpo saciado. Vitoriosa é a justiça que sem julgamentos sente o peso da alma de acordo com a gravidade dos pensamentos. Ser justo não implica julgar. A medida certa é algo que pode fugir ao bom senso. As sensações são verdadeiras, os sentimentos e os pensamentos enganam. O fogo do espírito não julga. O fogo do espírito não exige sofrimentos e êxtases alterados para ser alimentado. Basta arder. Numa sutil combinação que toda equação obtida não tem como expressar. Os números podem dizer muito, mas tal como as palavras, jamais deixaram de ser um jogo. Fácil se fosse mesmo as dez esferas e só umas dezenas e poucos caminhos. Beleza ter Jesus para colocar num deles.
O caminho é só mais um caminho. Amar é uma escolha. Para escolher precisamos nos entregar. Uma entrega exige sacrifícios. Fazer sacro é beber e comer. Esse é o meu corpo, esse é o meu sangue. Pão maravilhoso, vinho da vida.
AMAR
A sombra, o homem, as imensas decepções. A fera, o ferimento, a carne, o sangue, o boi, a vaca, os cornos, a lua, a cauda do escorpião. A dor, o veneno, as pústulas, o pus, o punho, o dedo, o que se diz depois de doer. O sentimento, o sonho, o sorriso, a risada que mesmo assim vem. A sorte, a substância, a espuma, o morno, as águas, o jorro, o jato, o que joga sem querer ganhar. O gosto, o gostar, a adoração. A pele, os cabelos, o verdejar. O ósculo perdido, o eriçar dos fios, o arrepio, a mordida efetiva, todos os dias para transar. O vinho, o queijo, o prato, o provar. A língua, a letra, o sentido daquela canção. A calma das estrelas, a troca dos azuis, a textura das pétalas, as mutações do horizonte. O ar, o bafo, o braço, os louros, a espada, a prata, a grandeza dessa paixão. A barba, a brabeza, a bravura, a barbaridade do animal. A batida, o golpe, o chute na coxa, o safanão na cara, o tapa em cheio, os hematomas, as marcas nos músculos, o deslocar dos ossos, toda alteração. O pior, o pagamento, a lama na bota, a bosta, o perdão. A oração, os incensos, a pedra, o pedestal. A peste, o pé, o salto, o modelo, a exata prescrição, O processo, a pena, o centro, o conceito, a pegada, o que afinal pegou. O bicho, a baba, o banho, a banheira, o enrabar. O fado, o feito, o que tinha que acontecer. A cama, os carmas, o cheiro dos travesseiros, o inquietar dos números, o desvendar das linhas, o uso das colunas, o balanço da rede, o evocar do mar. A garra do caranguejo, os uivos do cão, a coragem de entrar. O tapete de ovelha, o fogo na lareira, a fumaça das ervas, o tostar da carne, o espeto, a faca, o bisturi. A mão, os mil e quinhentos nãos, os milhões de senão, as ordens espúrias, o vociferar. A força, o mais fraco, o que fica para lembrar. As taças, os brindes, os cálices impossíveis de se quebrar. Os pedaços catados, os cacos do arremesso, o cimento e a cola, o altar inexistente, o estranho lugar que é nós. O abraço, o laço, o pavão. As garças do cais, as tartarugas do parque, os vidros embaciados, as flechadas loucas, os quereres desencontrados, os labirintos, o preto sobre o branco, os projetos, os dejetos, os torpedos, o sacrifício inevitável, as inesperadas voltas no destino.
Falar de poesia – experiência radical- prender a força do poema numa linguagem sem código, a palavra poética é corpo que insiste em assistir cenas sem história. Insubtancial vacilação que interpela no inaudito da forma que o discurso não contempla. Ferida trágica que ao se cantar nada explica Implicada em ritmo melhor mostrar apenas a música em curso que dizer retumba a esmo.
todo corpo refugado por quem muito se quer estralhaça o próprio coração
Deixo teu reino de cinzas e águas lamacentas. Adeus a pequenez das tuas buscas, mesmo sem deixar de amar a grandeza perdida de teu inacessível coração. Ó ferimento nunca sentido antes. Desamor fortuito, aniquilamento de um eu que desconhecia tamanha vontade. Desejos sempre em suspensão. Respostas e retornos da retórica sem limites cronológicos. Nunca mais aquela dor. Resistência. Incompreensão à entrega. Nenhum banho de mar. Abandono do abandono. Esquecimento do descaso de uma íris suja sob pálpebras cansadas. Nunca mais esse descuido. Ainda que tenhamos que dividir as ruas, não haverá encontros. Nem mensagens. Falta de interesse. Nunca mais esse doloroso assunto. Vínculo capenga. Vagas manifestações. Qualquer humano faz isso quando não tem vontade. Homens são mestres em fugir daquilo que os interpela arrancando as máscaras. Poucos, muito poucos, suportam o beijo perfeito de uma alma incendiada. Quanto mais fazem uso de gravatas, mais temem as águas jorradas na paixão fustigada por seu próprio querer, coisa que um cara pálida covarde jamais assume. Intolerâncias são a única maneira de suportar a insuficiência da procura. Inconformação só um amor bem resolvido espanta.
Babaca sem salário, contador de trocados, infeliz. Assalariado só faz o que o superior pontua. Trabalha só para ganhar dinheiro. Sempre é pouco. Não vibra as conquistas, pois ao fugir dos desafios, só perde. Perdido, jamais sequer pode imaginar o que perdeu. Desconhece o sabor dos nastúrcios, jamais provou uma tâmara no meio da salada ou tomou sorvete com um prato salgado, nunca ousou encher o arroz de pinholes, não teve a chance de sorrir para fatias de carambola sobre o caramelo de um filé e é inimaginável que se encharcará com Veuve Clicquot. Refuga a lagosta sem saber a delícia do que sob sua casca se morde. Junto às flores de tecido ou plástico julga caro a delicada montagem semanal de um ikebana. Talvez não costume fazer fondues. Quando tem alguma possibilidade escolhe granitos porque em pouca ardósia pisou. Conta a vida das pessoas pela idade. Não deve cultivar alecrim, lírios, orquídeas e manjericão. Aniversário é pizza, raramente orgasmos, nunca desvio.
1. sem raios de sol venho na nuvem densa da tarde que perde a luz para fazer brilhar teu olho sobre meu corpo a vibrar teu cheiro em pele esparramada em água de gozo e glória a ser possuída sem sombra por teu fluxo que amo sem medo de nele me perder
2. sozinha na noite esfumaçada a escabelar os meus serenos respiro as moléculas que de ti me restam e rindo da completa falta de esperança cheia de certeza equacionadas por tuas lutas vãs penso em tudo o que podemos e não fazemos e o que fazemos sem poder e os poderes sempre partidos e tudo o que queremos e pouco contamos e o que contamos e pouco damos importância só por dar
3. passou mesmo com o risco de voltar
4. e veio porque era para ficar o que se pensou isso e acabou aquilo sentimento fora do programa significado sem sentido feito para festejar as estrelas que jamais foram contempladas ao teu lado
5. conclui a tua lista sem eu jamais saber se estou nela
6. sem esperar resposta engancho minha alegria em indagações
7. fantasias ampliadas para esquecer os quilômetros que separam os corpos que perto ou longe ardem pelo encontro das bocas e o roçar perfeito das línguas
8. belos poemas menos perplexos que minhas circunflexões soltas entre suspiros para melhor arfar o éter onde dançam há séculos nossas copulantes almas
9. perspectivas infinitas no que começa sem meta se não a efêmera comunhão de forças perpassada em pressão de músculos atraídos em mútua consistência boa numa firmeza de poucas chances que sempre precisamos agarrar
10. admirações que visam mais que miradas mis numa rede insana onde sem saber o que desejas buscas despendendo tempos de amores e de música por tanto quereres sem quebrar teu coração nem por mim e se foi por alguém já nem tu sabes tanto esqueces o que queres que tudo o que quisestes tens e ao me teres quase nem me queres pois me ter te realiza mesmo sem querer essa realização tão quista que miríades de pequenas vidas em nossa nudez vive sob as vestes que nos espantam por poucos dias podermos juntos as tirar
Tantos dias são acontecimentos muitos. Amo. E não meço as conseqüências de amar sem razão. Nem métrica. Ainda menos mensurável, por mais quilos e medidas que apresente.
Calendários não são mais que o registro das tuas ausências.
Horas funcionam para gerir o corpo.
Segundos podem ser maiores que alguns minutos. No abraço fora do tempo, teu cheiro. Pessoa. Na alegria e na tristeza. Para sempre.
“e o para sempre sempre acaba”
nas sábias palavras de Renato Russo